Os órfãos da Romênia

Por em out 25, 2012 - Políticas Públicas | 0 comentários

Os órfãos da Romênia

25
out
2012

Pesquisas como a de Charles Nelson III são capazes de influenciar as políticas públicas a favor das crianças

Não é de hoje que se busca compreender como o cérebro da criança funciona no desenrolar da Primeira Infância e quais são os efeitos positivos gerados pelo convívio familiar e social, e também os pontos negativos da vivência em uma comunidade carente sem itens essenciais como serviços de saúde, educação, segurança e, claro, o carinho e o afeto.

Em posts passados, apresentamos a vocês a interessante pesquisa de David Weikart, intitulada The High/Scope Perry Preschool Study Through Age 40, que mostrou como a capacidade cognitiva, mecanismo que nos ajuda a compreender e assimilar o que acontece ao nosso redor, deve ser estimulada. Weikart separou dois grupos de crianças, entre 3 e 4 anos, onde uma parte recebeu participou de um programa de educação de qualidade e a outra, não. Os resultados demonstraram que os que receberam melhores cuidados estavam mais aptos a conviver em sociedade e se integrar ao mercado de trabalho.

Charles Nelson III, professor de Pediatria e Neurociência da Escola de Medicina de Harvard, investiu seu tempo e seu conhecimento para desenvolver um estudo que foi apresentado na palestra Como a neurociência contribui para melhores políticas públicas para a Primeira Infância?, no II Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância. Ele mostrou como as experiências negativas na Primeira Infância podem comprometer o amadurecimento das crianças. O trabalho comprovou conceitos que nós da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal sempre frisamos: as experiências vividas na infância afetam, sim, o desenvolvimento dos pequenos.

O professor Charles Nelson nos ensinou que as vivências negativas não ficam registradas apenas no psiquismo da pessoa, mas podem ser ‘vistas’ na própria arquitetura do cérebro.  Ele constatou que os estímulos vivenciados pela criança nos primeiros anos de vida ficam registrados fisicamente e afetam diretamente no amadurecimento delas.

O estudo do professor Charles foi baseado em 60 crianças carentes da Romênia, que passaram suas infâncias em abrigos e que não foram expostas a praticamente nenhum estímulo cognitivo ou vínculo afetivo. Os choques vividos pelos pequenos acarretaram graves resultados negativos. As crianças romenas que viveram sem estímulo e sem afeto, apresentaram uma baixa de 30 pontos de QI (Quociente de Inteligência), em comparação outras que cresceram sob os cuidados dos pais. As imagens da atividade cerebral das crianças de abrigo mostram perfeitamente o abandono e a carência, quando são comparadas às imagens da atividade cerebral normal para a idade. Concluiu-se, então, que a arquitetura cerebral foi afetada, o que ocasionou problemas emocionais e de aprendizado.

O estudo do professor Charles também concluiu que crianças que foram retiradas do abrigo até dois anos de idade conseguiam um grau de recuperação muito maior do que aquelas que foram retiradas após os dois anos. .

A pesquisa do professor Charles serviu de base para a mudança das políticas públicas na Romênia, onde atualmente a adoção de crianças órfãs é muito incentivada.

Não é só de higiene e saúde que vivem as crianças. Tão importante quanto esses dois cuidados e manter o vínculo afetivo com os pequenos para mostrar a eles o quanto são queridos e amados. Atitudes carinhosas, por mais simples que sejam, ajudam no desenvolvimento deles, fazendo-os mais independentes e seguros.

 Fotos: Vivian Iaki



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